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Tribunal do Júri: um sonho incompleto

Todos que me conhecem sabem meu amor pelo Tribunal do Júri.

Me lembro que, quando era criança, acompanhei de perto todos os detalhes do julgamento pela morte da Daniela Perez. Ainda me recordo da imagem do advogado de defesa utilizando uma boneca e simulando as facadas da vítima.

Nossa, me lembro que depois das reportagens, corria para meu quarto, juntava minhas bonecas que eram os jurados e eu ficava lá, horas e horas discursando “brilhantemente” sobre a inocência do meu cliente.

Para muitos, “defender um assassino” é uma heresia. Para mim, sempre foi uma dádiva, e, como se diz por aí... Tem louco pra tudo mesmo, né?

A menina cresceu, estudou direito e, como manda a tradição, participou do Tribunal do Júri simulado.

Meu olho brilhava só de pensar em como eu era abençoada, afinal, quantas pessoas poderiam chegar perto de realizar um sonho de infância? Batalhei e consegui atuar como advogada de defesa no Júri Simulado, mas, quando recebi a cópia do processo me deu vontade de chorar.

Estava preparado para defender o Maníaco do Parque, um estuprador que matava as vítimas e esquartejava, uma briga de bar que terminou em tiroteio... Qualquer coisa menos para aquilo: um infanticídio (mãe que mata o próprio filho logo após o parto em estado puerperal).

Impossível não pensar que aquela vítima poderia ter sido eu. Minha mãe teve depressão, não cuidou de mim quando nasci... Mal podia me ver. Quem cuidou de mim foi minha irmã que, na época, tinha 11 anos.
Doeu meu coração ao ver a foto da criança morta que foi jogada na latrina. Poderia ter sido eu, mas não era. Falar sobre a depressão da minha mãe sempre foi tabu aqui em casa. Eu, particularmente, não me lembro de nada e, para mim, não faz a menor diferença. Mas para a minha mãe fazia, e, se sentia culpada por não ter cuidado de mim nos primeiros meses de vida e tentava compensar o tempo perdido com superproteção.

O que me ajudou a defender a ré no Júri simulado foi o fato de eu ter chegado a conclusão de que eu perdoaria minha mãe se ela tivesse me matado por causa da doença dela.

Na época, minha mãe queria ir assistir ao Júri, e eu, veementemente, neguei. A presença dela me deixaria mais nervosa. E eu fui lá e fiz meu papel e me senti realizada.

Minha mãe disse que, toda vez que eu fizesse um Júri, ao final, ela sempre me presentearia com um buquê de rosas. E eu sempre ria, achando essa idéia muito cafona.

Infelizmente, quatro meses depois minha mãe faleceu. Ela não viu eu me formar, receber a carteira da OAB, nem pôde comparecer às Sessões do Tribunal do Júri na qual atuei.

E eu? Eu nunca disse para minha mãe que a perdoava pelo fato de não ter me amamentado, não ter cuidado de mim. Nunca disse que entendia a doença dela, e que ela não pode se responsabilizar para o resto da vida por causa disso.

E, ainda espero, ao final de cada Sessão, aquele buquê de flor cafona que sei que nunca receberei.

5 Response to "Tribunal do Júri: um sonho incompleto"

  1. Tribunal do Júri simulado é divertido. Fiz e também atuei na defesa do réu. Eu acho que assisti ao que tu fez.

    Quando tu fizer um Juri, eu prometo uma rosa e um bilhete pode ser? Não substitui, não te conforta, mas é meu compromisso ctg! =)
    E eu não serviria para advogar, não tenho argumento nenhum, pra nada. Abstraio e finjo demência. SEMPRE!

    Lindo texto.

    Filipe says:

    Olha... eu ia descorrer agora com os meus comentários sobre o texto, mas acho q as palavras do Chicuta dizem tudo: Lindo Texto.

    Rosangela says:

    Amei seu texto e com certeza sua mãe deve estar muito feliz,sou mãe e não vejo a hora de ver minhas filhas formadas este é o sonho de qualquer mãe , pois, também batalho muito para que possa sentir essa mesma emoção que com certeza sua mãe deve estar sentido...beijos e sucesso em sua carreira.

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